terça-feira

Idéas de Géca Tatú - 1919




A propósito de seu  livro Idéas de Géca Tatu, Lobato comenta em carta ao amigo Godofredo Rangel sobre os problemas que um escritor-editor topa pelo caminho:

“(...) Faço livros e vendo-os porque há mercado para a mercadoria (...). E timbro em avisar ao leitor de que não sei a língua. Se por acaso algum dia fizer outro livro, hei-de usar aqueles letreiros das fitas:

  Contos de Monteiro Lobato, com pronomes por
  Alvaro Guerra; com a sintaxe visada por José
  Feliciano e a prosódia garantida no tabelião por 
  Eduardo Carlos Pereira. As virgulas são do 
  insigne virgulografo Nunalvares, etc.


Tudo gente da mais alta especialização – e a critica que se engalfinhe com eles. Isso, para não haver hipotese de me sair coisa vergonhosa como a primeira edição de Ideias de Jéca Tatú. Não houve o que não houvesse na impressão desse livro. Era numa oficina no largo do Arouche que estava de mudança, e era o ultimo trabalho que atamancavam lá. Quando vim a saber e quis acudir ao coitadinho, era tarde. Fui lá de noite. Encontrei o único prelo ainda não mudado rodando na impressão da primeira folha. Pedi que parassem para eu examinar o serviço. Li varias paginas e corei até á raiz da alma. Não tinham feito revisão nenhuma. Erros indecorosos pululavam ali como pulga em cachorro sarnento. Corrigi o que pude. Era composição manual – uns tipos velhos, desbeiçados, indecentes. Tudo indecente. Estive lá até meia noite caçando pulgas no resto, mas desanimei: havia mais pulgas do que estrelas no ceu. Mandei tudo para o inferno e fui dormir.
(...) Sabe como se chama isso? Relaxamento, desordem, má organização. E foi bom que viesse em livro meu. (...) Minha vergonha é daquelas que levavam os antigos a cobrir a cabeça de cinzas. Na India parece que num caso assim o sujeito besunta-se com bosta de vaca. Aqui, o cinico permanece com a mesma cara de sempre e embolsa os lucros da infamia...
 Adeus. Um abraço do sordido, indecoroso 
                                                                                            LOBATO”


                                                                                                 In: A Barca de Gleyre, pp. 211, 212. Ed. Brasiliense, 1951.


Nessa época a indústria editorial ainda ensaiava os primeiros passos no rumo da industrialização e Lobato seria o responsável por esse avanço.
Imagens: primeira edição, brochura original, editado pela Revista do Brasil


sábado

As caçadas de Pedrinho - 1933




Um dos mais raros livros de Lobato, onde aparece como personagem a menina Cléo, filha de Octalles Marcondes Ferreira, mineiro que começou como contínuo na Revista do Brasil e logo se tornou sócio de Lobato.

A gênese dessa obra foi "A caçada da onça", escrita em 1924, e que serviu de primeira parte de "As caçadas de Pedrinho". Nesse livro surge o rinoceronte que faria parte do bandinho.

É uma ds obras em que Lobato mais ridiculariza a burocracia, a corrupção e a inépcia do governo. Mais de uma vez diz que Dona Benta era oposicionista, fato que desaparece nas edições posteriores.

Na primeira edição desse livro, uma curiosa nota recheada de ironia, fala sobre a criação de mais um selo (na época uma das formas de arrecadação fiscal).

As ilustrações são uma atração à parte, no traço elegante de Villin.

Hans Staden


Escrito em 1927, era uma adptação da história do alemão que viveu entre índios antropófagos do Brasil.

Um ano antes Lobato já havia publicado para adultos o primeiro livro que falava sobre o Brasil e, curiosamente, o primeiro escrito para sua nova editora: a Companhia Editora Nacional.

quarta-feira

El Comprador de Haciendas, 1923


Tradução de contos por Benjamin de Garay.

Ficha:

1923

Editorial Cervantes - Barcelona

150 páginas

Narizinho Arrebitado - 1921


Esta é a edição escolar da história de Narizinho, e merece ser contada pois é ilustrativa do idealismo e impetuosidade de Lobato.

Empolgado com seu sucesso como escritor e a surpreendente saída de seus livros, Lobato resolve arriscar no livro escolar, sem dúvida o maior filão do mercado editorial.

Certamente superestimando sua fama, refundiu "A Menina do Narizinho Arrebitado", encomendou uma edição de custo menor, sem gravuras coloridas, em papel jornal. Porém, ao invés de imprimir 5 ou 10 mil exemplares, o que já seria uma tiragem extremamente alta para a época, num arroubo manda fazer 50500 exemplares!

Assustado com os "narizes" que encheram o escritório da Revista, os depósitos e até o porão de sua casa, Lobato toma 500 livrinhos e manda distribuir aos colégios paulistas. Como ele mesmo confessava depois, existe um deus para os bêbados e os inocentes: numa visita de inspeção escolar, o então governador Washington Luiz fica intrigado com o interesse das crianças em um livrinho gasto de tanto ser manuseado.

Manda o secretário Alarico Silveira encontrar o autor e fazer uma compra para todos os colégios do estado. Pois foi o que fez Alarico: ligou para Lobato e disse que o Governo queria comprar "Narizinho"; perguntado sobre a quantidade e informado que o estoque era imenso, o secretário pilheriou: "Ora, mande aí uns trinta mil."

Pois no dia seguinte um aturdido Alarico ligava para Lobato, dizendo que não tinha onde colocar tantos livros, que achava que o escritor estava blefando.

Foi assim que em poucos meses a "avalanche nasal" se esgotou, deixando um belo lucro ao intrépido editor.

A Menina do Narizinho Arrebitado


Em 1920, durante uma partida de xadrez com Toledo Malta, este contou a lobato a história de um peixinho que, saído do mar, desaprendeu a nadar e morreu afogado.

Lobato conta que perdeu a partida porque o peixinho não parava de nadar em suas idéias, tanto que logo sentou-se à maquina e escreveu a "História do peixinho que morreu afogado".

Até hoje os pesquisadores buscam esse conto, já que Lobato não se lembrava de onde o publicou. O fato é que isso foi um embrião para que finalmente o escritor decidisse concretizar um velho plano: escrever para crianças. Há anos tinha escrito ao amigo Rangel dizendo que não encontrava bons livros para os filhos; o que então existia eram as edições portuguesas de fábulas e contos de fadas, mas numa linguagem que espantanva os pequenos ao invés de criar o encanto pela leitura.

No Natal de 1920 surge "A Menina do Narizinho Arrebitado",  um livro grande, classificado como "fantasia", fartamente ilustrado por Voltolino.

Em janeiro  e fevereiro de 1921, Lobato publica trechos do livro na Revista do Brasil.

Imagens: edição fac-similar de A menina do Narizinho Arrebitado, de 1982.

Edição nº 61 da Revista do Brasil, janeiro de 1921.

A Onda Verde - 1921


Lançado em 1921, com o subtítulo Jornalismo, esta obra reúne artigos e crônicas de Lobato  sobre a cultura do café, veteranos do Paraguai, livros, etc.

Esse livro faz parte de uma série que trazia na capa e fronstispício o Edição da Revista do Brasil e editora Monteiro Lobato & Cia.

Ficha:

1921 (1000 exemplares)

Monteiro Lobato e Cia

terça-feira

Negrinha - 1920


Considerada uma das obras-primas do conto, Negrinha é a história que batiza o pequeno volume lançado em 1920, numa tentativa de "meio livro a 2.500 réis", nas palavras de Lobato.

Também foi uma obra que foi refundida várias vezes, tendo sua forma final apenas em 1945, quando do lançamento da coleção Literatura Geral pela editora Brasiliense.

Em 1922 foi publicado na Coleção Brasília.

Ideas de Geca Tatu - 1919


Reunião de diversos artigos publicados por Lobato em defesa de uma cultura legitimamente brasileira e contra o francesismo que imperava na época.

A primeira edição foi publicada em 1919, e dela Lobato conta que foi vergonhosa: impressa numa gráfica em vias de se mudar de prédio, a composição foi feita mal e porcamente. O escritor conta que ficou até madrugada corrigindo erros, mas eram tantos - como pulgas em cão sarnento - que desistiu.

A segunda edição, já alterado o título para Jéca ao invés de Géca saiu em 1920.

Imagem 1: folha de rosto da primeira edição, 1919

Imagens 2 e 3: terceira edição, já no 13º milheiro, 1922

Cidades Mortas - 1919


No sucesso de Urupês, Lobato publicou diversos livros entre 1919 e 1923.

Cidades Mortas, publicado em 1919, teve sucessivas reimpressões até 1920, atingindo a marca de 5 mil exemplares.

Na segunda edição já foi refundido, com inclusão e exclusão de contos, assim como algumas alterações dos textos. Essa era uma característica de Lobato, que vemos em toda a sua obra.

Geralmente, as primeiras edições de livros são as mais procuradas por colecionadores. No caso de Lobato, não só essas, mas muitas vezes as segundas, terceiras e até quartas edições são itens de coleção, pelas alterações, correções e ajustes que o escritor fazia.

Foi lançada em 1921 uma edição desse livro na Coleção Brasília, brochuras de preços populares, em formato grande.

Imagem 1: brochura, 1º milheiro, 1919

Imagem 2 e 3: capa dura, 5º milheiro, 1920

Imagem 4: Coleção Brasilia

Os negros - 1921


Lançado em 1921, na coleção "A novella semanal", "Os negros" foi uma tentativa de popularizar o livro, a preços baixos e com autores conhecidos.

Simultaneamente, foi lançado na Argentina, sob o título "Alma Negra".

Ficha:

1921

Sociedade Editora Olegario Ribeiro

Urupês - 1918


Exemplar recém adquirido ainda sem restauro. A capa foi danificada, o miolo está acidificado, mas em breve ele estará apresentável novamente, e pronto a enfrentar os próximos 90 anos.

Publicado em junho, teve sua tiragem inicial esgotada em exatamente um mês. Em setembro já saía a terceira edição e em 1923 já atingia os 30 mil exemplares vendidos, um sucesso praticamente inédito de um autor nacional.

Ficha

Urupês

1918 (100o exemplares)

Edição da Revista do Brasil

Ilustrações de J. Wasth Rodrigues e Monteiro Lobato (que se esconde sob "um curioso")

Nasino - 1945



Esta é a versão para o italiano de "A menina do Narizinho Arrebitado", de 1920

Ficha:
Nasino
1945
L´Eclettica Editrice

O Sacy-Perêrê - Resultado de um inquérito - 1918


"Urupês" ainda é considerado o livro de estréia de Monteiro Lobato, mas na verdade o primeiro livro publicado pelo escritor foi "O Sacy-Perêrê", no mesmo ano de 1918.

A história desse livro é curiosa: num passeio pelo Jardim da Luz com o amigo Maneco Lopes, Lobato ficou incomodado com a presença de anões e outras figuras da mitologia européia ao invés de uma coisa nossa: mula-sem-cabeça, boitatá, saci, coronel...

Como já era colaborador no jornal O Estado de São Paulo e na Revista do Brasil, começou a publicar uma série de artigos sobre o tema. Os comentários que o assunto levantou o levaram a criar um inquérito na versão vespertina do jornal, conhecida por Estadinho.

O resultado foi surpreendente: centenas de leitores participaram  contando suas experiências e descrevendo como era o saci e suas diabruras.

Para ajudar no orçamento da edição de 2000 exemplares, Lobato vendeu espaço para anúncios, utilizando o saci como garoto-propaganda. Certamente foi o primeiro caso de merchandising em um livro no Brasil.

Em 1998 houve uma edição fac-similar patrocinada pela fundação Odebrecht e em 2008 a obra ganhou nova versão da Editora Globo.

Ficha:

O Sacy-Perêrê - Resultado de um inquérito

1918 (2000 exemplares)

Editora: Seção de Obras do Estado de São Paulo

Ilustrações de Voltolino

segunda-feira

As Reinações de Narizinho



Um clássico da obra Lobatiana, "As Reinações de Narizinho" foi publicado em 1931. Formado por diversos livros escritos entre 1920 e 1930, a obra compunha-se de um grosso volume, ilustrado por Jean G. Villin.

Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato conta sua empolgação sobre a nova obra e diz que vai brigar com que não gostar.

Apesar de não ser o primeiro livro de Lobato, o escolhemos para iniciar este site por ser um livro emblemático em sua obra.

O exemplar que ilustra este post é a primeira edição, lançado em 1931, sendo o primeiro volume da Biblioteca Pedagógica Brasileira - 1ª série.

Abaixo a belíssima guarda mostrando o sonho de Lobato: que as crianças morassem em seus livros.

Ficha:

As Reinações de Narizinho

1931

Companhia Editora Nacional

Ilustrações de Jean G. Villin