11/12/2009

Nosso Clube de Leitura

No dia 3 de dezembro o Acervo recebeu a visita de Andréa e Gaby, as idealizadoras do Nosso Clube de Leitura, em Alphaville. 

Formado por apaixonados por livros e literatura, todo o mês uma obra é escolhida pra ser lida e debatida por todos, num ambiente livre de qualquer academicismo, comprometido apenas com o prazer da leitura: "Criamos um espaço onde pessoas que gostam de ler se encontram uma vez por mês para trocar ideias, refletir e debater sobre os livros escolhidos. São reuniões descontraídas, sem preconceitos nem formalidades."




Nesse dia foi montada uma mini-exposição, com algumas das obras raras e outras que se tornaram ícones de um período, como a belíssima coleção lançada pela Brasiliense nos anos 50 e 60. As capas coloridas, com ilustrações de Augustus, e o restante com desenhos de Le Blanc.




Abaixo o texto publicado sobre a visita:

Notícias do mês

"No dia 3 de dezembro visitamos a URUPÊS, o ateliê de encadernação do amigo Ricardo, onde ele guarda a sua coleção de Monteiro Lobato.

José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) foi um importante escritor, editor e tradutor brasileiro. Ficou popularmente conhecido pelo conjunto educativo e divertido de sua obra de livros infantis.


Monteiro Lobato foi um personagem singular na história brasileira, seja pela inteligência notável, seja pela coragem incansável, mas acima de tudo por sua incrível capacidade de se deixar levar pela imaginação e criar um mundo maravilhoso para as crianças - a única salvação que ele aceitava para a humanidade.


"Urupês" foi o livro de estréia de Monteiro Lobato, em 1918. Sucesso de público e crítica , reúne alguns dos mais importantes e primorosos contos da literatura brasileira.

Frases:
"Um país se faz com homens e livros"

“Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira – mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum.”

Monteiro Lobato

Obrigada, Ricardo, por ter compartilhado conosco a sua coleção de livros e por nos contar tantas curiosidades da história de vida deste homem revolucionário e um dos mais importantes da literatura brasileira. "




23/10/2009

Lobato e a Praça da Sé, 34


Logotipo da CGML 


Em 1924 a Monteiro Lobato & Cia passa a se chamar Companhia Graphico-Editora Monteiro Lobato, e deixa os acanhados escritórios da rua Vitória para ocupar o primeiro andar do recém-inaugurado Palacete São Paulo, na Praça da Sé, 34. Construído pelo engenheiro Nestor Caiuby, o edifício se destacava na nova praça que abrigaria a futura catedral paulistana.
 Nesse mesmo ano Lobato havia montado em um enorme galpão na rua Brigadeiro Machado, no Brás, o mais moderno parque gráfico do Brasil, com máquinas que vinte anos depois ainda eram consideradas de último tipo.
 Mas o destino viria a atrapalhar os grandiosos projetos do escritor-editor. A revolução que eclodiu em junho de 1924 foi o início de um período crítico para a nova editora. Apesar de não ter sofrido muito com os bombardeios legalistas, a gráfica ficou paralisada por muito tempo. Além disso, o governo federal suspendeu os redescontos, gerando um pânico bancário. Não bastasse isso tudo, Lobato, a despeito de ser um empresário cujo governo era o maior cliente, escreveu uma carta ao presidente Artur Bernardes criticando suas ações.
 Mal terminava o fatídico ano de 1924 e uma seca de enormes proporções atinge São Paulo, obrigando a Light and Power começou a racionar a energia elétrica: a gráfica só podia trabalhar dois dias na semana. Para tentar minimizar o problema, Lobato resolve comprar um caríssimo gerador a diesel. Logo veria que o alto investimento fora um desperdício: não havia água para refrigerar o gerador.
 Endividado, com a produção parada e um futuro sombrio, Lobato, durante uma viagem de seu sócio Octales Marcondes Ferreira, pede a falência da empresa. Todos acham que ele foi precipitado, mas esse era o jeito lobatiano de fazer as coisas. Junto com Octales, compram toda a massa da empresa falida e com ela fundam aquela que seria outro marco na história editorial brasileira: a Companhia Editora Nacional.
 Indubitavelmente, Lobato foi um pioneiro em diversos setores da cultura e da vida nacional. Considerado o pai da literatura infantil brasileira, sua figura excede essa classificação.
 Apaixonado e impetuoso, Lobato sempre lutou por suas crenças, sem medos, sem se ater a preconceitos e dogmas. Foi um libertário, nunca seguindo fila, como ele mesmo gostava de dizer.

  Ricardo Ferreira
  

 Praça da Sé, final dos anos 30
  No lado esquerdo da foto, vemos o Palacete São Paulo.
  Autor: B. J. Duarte



19/10/2009

O publicista Monteiro Lobato

 Admirador do povo americano e de sua cultura, desde jovem Lobato sabia que a propaganda era fator de sucesso para qualquer empreitada.

 Ao organizar e publicar “O Sacy-Perêrê” inova mais uma vez inserindo diversos anúncios publicitários – de chocolates à máquinas de escrever – tendo o Saci como garoto-propaganda.



 Editor, não se acanha em anunciar seus livros em jornais, o que provoca escândalo na elite intelectual, para quem o livro era algo para poucos eleitos, como a ambrosia e o néctar do Olimpo:

“Temos que meter o livro debaixo do nariz do leitor.”

 Em 1920 um anúncio de página inteira n´O Estado de S. Paulo mostra a parceria entre Lobato e o Guaraná Espumante: no traço de Voltolino, uma libélula com Lobato e Edu Chaves sobrevoa os personagens criados pelo escritor, que declara só ter conseguido imaginar tudo aquilo após ter tomado o guaraná.



 Entusiasta da propaganda, graças a ela conseguiu aumentar o número de assinantes da Revista do Brasil, com o simples envio de uma mala-direta. Foi essa mesma ferramenta que o ajudou a ampliar o canal de vendas para os livros de sua editora.

 Assustado, descobriu que em todo o país não havia mais que 40 livrarias! Como, pois, escoar toda a produção que ele já sonhava? Com a ajuda das agências postais, conseguiu um cadastro com os comerciantes de diversas cidades. Depois enviou a cada um deles uma proposta de venda consignada de livros:

 “Deseja Vossa Senhoria vender uma mercadoria chamada livro?”

 Foi um sucesso. Um entusiasmado Lobato conta que de 40 aumentou para 1200 o número de pontos-de-venda da “mercadoria chamada livro”.

 A polêmica gerada por Jeca Tatu atraiu o interesse do farmacêutico Cândido Fontoura, que negocia com Lobato a publicação do Jeca Tatuzinho, fazendo propaganda de seus produtos, como Ankilostomina, Lactopurga e o produto que viria a se tornar um sucesso na história farmacêutica: o Biotônico Fontoura.

 Esse livreto tornou-se a peça publicitária mais conhecida da história da propaganda no Brasil, e a de maior tiragem, com mais de 100 milhões de exemplares até 1982.


 Não havia rincão deste país onde não chegasse o tão apreciado Jeca Tatuzinho.

Ricardo Ferreira 

Imagens: Anúncio de Guaraná Espumante cedido gentilmente pela Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato 
Demais pertencentes ao acervo. 

06/10/2009

Exposição Monteiro Lobato

Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira – mas já tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum.  
Monteiro Lobato

 José Bento Monteiro Lobato foi um personagem singular na história brasileira, seja pela inteligência notável, seja pela coragem incansável, mas acima de tudo por sua incrível capacidade de se deixar levar pela imaginação e criar um mundo maravilhoso para as crianças, a única salvação que ele aceitava para a humanidade.

 Relacionar as atividades que Lobato exerceu (algumas pioneiramente) é algo fundamental para que as pessoas tenham uma noção do que foi esse senhor de espessas sobrancelhas: advogado, promotor, fazendeiro, jornalista, crítico, escritor, editor, tradutor, adido comercial, industrial...

 Meu primeiro contato com a literatura lobatiana começou aos 9 anos de idade, ao ler “A chave do tamanho” e “Negrinha”. Desde então minha curiosidade e admiração pelo neto do Visconde de Tremembé só fizeram crescer.

 Daí a formar uma biblioteca com suas obra foi um passo, mas isso me levou a outra descoberta: Lobato reescrevia seus livros a cada edição. Teve início a busca por edições antigas e análise das alterações (e melhorias) que Lobato fazia.

 Homem de humor fino e ironia contundente, cunhou frases que sintetizam aspectos de nossa cultura e sociedade, e que mesmo com mais de 60 anos preservam sua atualidade.

 Escrever para crianças foi sua grande obra, mas isso não pode obscurecer as outras facetas desse homem que marcou a vida cultural brasileira na primeira metade do século XX, com coragem, bravura e acima de tudo um amor incondicional pelo Brasil.

 Avesso à homenagens, estivesse ele entre nós, iria franzir as sobrancelhas cerradas, fazer um muxoxo e com sua voz fina dizer: “Bobagem!”, mas no fundo extremamente feliz e orgulhoso de tudo aquilo que deixou.

 Sejam bem vindos ao mundo maravilhoso de Monteiro Lobato!
 Ricardo Ferreira

(Texto escrito para a Exposição Loucura ou sonho: a história esquecida de Monteiro Lobato)



Algumas fotos da Exposição, com direito a visita escolar de um grupo de crianças de 3 e 4 anos.



Depois da visita, é fácil entender o porquê Lobato gostava tanto de crianças.

04/10/2009

Prêmio Jabuti - Crítica Literária


"Dois livros da Editora Unesp foram contemplados com o Prêmio Jabuti 2009, o mais importante do mercado editorial brasileiro. Monteiro Lobato: livro a livro, obra de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini, venceu na categoria Crítica Literária. Meio ambiente e crescimento econômico, de Gilberto Dupas, ficou com o terceiro lugar na categoria Economia, Administração e Negócios. O resultado dos três finalistas em cada categoria foi anunciado na manhã desta terça-feira (29 de setembro) na Câmara Brasileira do Livro.


Com um capítulo dedicado a cada um dos livros infantis publicados por Monteiro Lobato, a obra de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (co-edição com a Imprensa Oficial) se ocupa da linguagem, da imagem, das ilustrações e dos conceitos editoriais do escritor, apresentando o percurso percorrido por Lobato em cada um de seus livros. Os autores também abordam a maneira como as matrizes culturais foram absorvidas por Lobato e como ele as transformou em histórias para crianças. (...)

Os livros da Fundação Editora da Unesp podem ser adquiridos pelo telefone (11) 3107-2623 ou pelos sites: www.editoraunesp.com.br ou www.livrariaunesp.com.br" (Fonte: Pluricom)

Como parte das obras que ilustram o livro fazem parte deste acervo, nos juntamos à editora e autores na comemoração pelo prêmio.


Oficina de Literatura - Monteiro Lobato


        OFICINA DE LITERATURA
                       O SABER NO
     SÍTIO DO PICAPAU AMARELO

Objetivo:

Resgatar as obras de Monteiro Lobato, o fundador da Literatura para Crianças no Brasil, apresentando a sua proposta de inclusão do elemento lúdico nos textos literários.  

Público alvo:

Alunos dos Cursos de Letras e Pedagogia
Editoras e distribuidoras de livros.
Educadores e pais de alunos
Organizações não governamentais e entidades sociais.
Secretarias Municipais de Educação e Cultura.

Procedimentos:

. Dinâmicas de grupo. 
. Leitura e análise de textos.

Programas:

 1) O Nascimento da Literatura para Crianças na Europa
. Importância da leitura, discussão sobre o ‘utile’ x ‘dulce’.
. O Iluminismo e a negação do uso da imaginação.
. Conto de fadas – Perrault, Irmãos Grimm e Andersen.
. A Revolução Industrial e as mudanças sociais.
. O Investimento nas instituições: família e escola no século XVIII e XIX.
. Análise de textos adaptados para crianças: Robinson Crusoé de Daniel Dafoe e As Viagens de Gulliver de Jonathan Swifft. 

2) A Literatura para Crianças no final do século XIX e primeiras décadas do século XX.
. Textos de Olavo Bilac, Manoel Bonfim e Júlia Lopes de Almeida 
. Surgimento do escritor Monteiro Lobato.
. O primeiro texto lobatiano para crianças – D’ Après Nature.
. O primeiro livro de Lobato para crianças – A Menina do Narizinho Arrebitado -1920.
. Reinações de Narizinho -1931.
. Estudo da personagem Narizinho.  

 3) O Sítio do Picapau Amarelo
. Como se dá o saber nesse espaço utópico. 
. O despontar da personagem Emília.
. A permanência de Lobato na Literatura para Crianças.
. O resgate das obras do escritor. 
. Análise dos textos: A Cigarra e a Formiga de La Fontaine e Monteiro Lobato. 

Datas, horários e taxa de investimento: a combinar

Carga horária: 9 horas (em três encontros de três horas).

Participantes: mínimo 10 e máximo 50 pessoas.

Contato
Áurea Laguna
E-mail: aurealaguna@gmail.com - Ribeirão Preto - SP

Contato para inscrições na cidade do Rio de Janeiro - RJ
Deka Teubl 
Fone: (21) 3237-7237
E-mail: dekateubl@yahoo.com.br

Imagem: Dona Benta e seus netos no traço de Kurt Wiese, anos 20.

29/09/2009

Idéas de Géca Tatú - 1919




A propósito de seu  livro Idéas de Géca Tatu, Lobato comenta em carta ao amigo Godofredo Rangel sobre os problemas que um escritor-editor topa pelo caminho:

“(...) Faço livros e vendo-os porque há mercado para a mercadoria (...). E timbro em avisar ao leitor de que não sei a língua. Se por acaso algum dia fizer outro livro, hei-de usar aqueles letreiros das fitas:

  Contos de Monteiro Lobato, com pronomes por
  Alvaro Guerra; com a sintaxe visada por José
  Feliciano e a prosódia garantida no tabelião por 
  Eduardo Carlos Pereira. As virgulas são do 
  insigne virgulografo Nunalvares, etc.


Tudo gente da mais alta especialização – e a critica que se engalfinhe com eles. Isso, para não haver hipotese de me sair coisa vergonhosa como a primeira edição de Ideias de Jéca Tatú. Não houve o que não houvesse na impressão desse livro. Era numa oficina no largo do Arouche que estava de mudança, e era o ultimo trabalho que atamancavam lá. Quando vim a saber e quis acudir ao coitadinho, era tarde. Fui lá de noite. Encontrei o único prelo ainda não mudado rodando na impressão da primeira folha. Pedi que parassem para eu examinar o serviço. Li varias paginas e corei até á raiz da alma. Não tinham feito revisão nenhuma. Erros indecorosos pululavam ali como pulga em cachorro sarnento. Corrigi o que pude. Era composição manual – uns tipos velhos, desbeiçados, indecentes. Tudo indecente. Estive lá até meia noite caçando pulgas no resto, mas desanimei: havia mais pulgas do que estrelas no ceu. Mandei tudo para o inferno e fui dormir.
(...) Sabe como se chama isso? Relaxamento, desordem, má organização. E foi bom que viesse em livro meu. (...) Minha vergonha é daquelas que levavam os antigos a cobrir a cabeça de cinzas. Na India parece que num caso assim o sujeito besunta-se com bosta de vaca. Aqui, o cinico permanece com a mesma cara de sempre e embolsa os lucros da infamia...
 Adeus. Um abraço do sordido, indecoroso 
                                                                                            LOBATO”


                                                                                                 In: A Barca de Gleyre, pp. 211, 212. Ed. Brasiliense, 1951.


Nessa época a indústria editorial ainda ensaiava os primeiros passos no rumo da industrialização e Lobato seria o responsável por esse avanço.
Imagens: primeira edição, brochura original, editado pela Revista do Brasil